A propaganda chamou para a rua,
dizendo que a rua era a maior arquibancada do Brasil. Mas a rua virou estádio e
não tem nenhuma bola em campo. A não ser as balas, feitas de uma borracha quase
próxima a da bola e de um formato cilíndrico que poderia também ser comparado a
uma bola de futebol. Há também a beleza, beleza digna de um futebol arte, como
também há a brutalidade, digna dos hooligans.
O país do futebol vive um momento
histórico. E não é a Copa do mundo, por mais que se encontrem semelhanças nesta
história. A partida começa em junho, mês de muitas festas no Brasil, festas
populares, festas profanas e santas, nada mais propício, mas a maior festa
popular é a que começou em plena Avenida Paulista no dia 13 de junho. Milhares
de manifestantes saíram às ruas para protestar contra o aumento das passagens
de ônibus e metrô. O que poderia ser um simples protesto está se tornando uma
primavera, como a primavera árabe que acontece na Turquia, mas eu diria melhor,
está se tornando um carnaval, pois afinal aqui é a terra do carnaval. Que não me entendam errado, não pensem que ao
chamar a onda de manifestações que se alastram pelo país de carnaval – e que
não são mais somente pela redução das tarifas e pela qualidade dos transportes
públicos - eu estaria as transformando em piada. Quem julga isso não sabe o
verdadeiro significado do carnaval. Carnaval não é somente a festa da carne,
nem das bebedeiras, travestimentos, frevos e sambas, me pouparei das origens
históricas e também me utilizarei delas. Quero chamar a atenção para o
significado do carnaval e a origem das festas populares na Idade Média. Quero
lembrar de Mikhail Bakthin (com seu livro A
cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 2010) e pensar na
anárquica origem do termo Carnavalizar.
As festas populares que ocorriam na Idade
Média, dentre elas, o carnaval, tinham por intuito inverter a ordem, por isso chamo
de anárquicas. Estas manifestações populares aconteciam paralelamente às
manifestações religiosas e tinham como princípio ridicularizar, caricaturar,
rir, e principalmente, se opor as regras estabelecidas na vida comum, ou seja,
elas marcavam a simbolização de uma vida dupla, na qual elas manifestavam o
contrário da vida comum, cheia de hierarquizações e regras, “uma fuga
provisória dos moldes da vida ordinária”.
A ideia de carnavalização também se estende a ideia de renovação, que
pode ser equacionada da seguinte forma: degradação – renovação – libertação. As
manifestações populares no final da Idade Média marcam o começo da transformação
que se direciona para o Renascimento, o século das Luzes.
O carnaval é a festa do povo, que
brinca de representar na rua a realidade, uma realidade próxima, mas também
avessa à vida comum. Ao representar,
acaba por também viver esta realidade, tornando-a verdadeira, fazendo com isso
a transformação (renovação) dos valores de uma comunidade. Esta é a ideia
primordial do carnaval. E no país do carnaval, que vaia a presidente em pleno
estádio de futebol, corrobora o ato de ridicularizar e faz jus ao significado
do carnaval. Assim, sair à rua é ir contra a ordem, esta ordem que tenta
colocar medo com balas de borracha, bem mais dolorosas que uma bola de futebol.
Portanto, no país do carnaval e do futebol, carnavalizar é ir contra a ordem, é ir para rua, é ser contra a
hierarquização dos direitos, é transformar. “O carnaval é a segunda vida do
povo”. Portanto, vamos para rua, carnavalizar!
