sexta-feira, 5 de julho de 2013

Carnavalizar

    A propaganda chamou para a rua, dizendo que a rua era a maior arquibancada do Brasil. Mas a rua virou estádio e não tem nenhuma bola em campo. A não ser as balas, feitas de uma borracha quase próxima a da bola e de um formato cilíndrico que poderia também ser comparado a uma bola de futebol. Há também a beleza, beleza digna de um futebol arte, como também há a brutalidade, digna dos hooligans.
O país do futebol vive um momento histórico. E não é a Copa do mundo, por mais que se encontrem semelhanças nesta história. A partida começa em junho, mês de muitas festas no Brasil, festas populares, festas profanas e santas, nada mais propício, mas a maior festa popular é a que começou em plena Avenida Paulista no dia 13 de junho. Milhares de manifestantes saíram às ruas para protestar contra o aumento das passagens de ônibus e metrô. O que poderia ser um simples protesto está se tornando uma primavera, como a primavera árabe que acontece na Turquia, mas eu diria melhor, está se tornando um carnaval, pois afinal aqui é a terra do carnaval.  Que não me entendam errado, não pensem que ao chamar a onda de manifestações que se alastram pelo país de carnaval  –  e que não são mais somente pela redução das tarifas e pela qualidade dos transportes públicos - eu estaria as transformando em piada. Quem julga isso não sabe o verdadeiro significado do carnaval. Carnaval não é somente a festa da carne, nem das bebedeiras, travestimentos, frevos e sambas, me pouparei das origens históricas e também me utilizarei delas. Quero chamar a atenção para o significado do carnaval e a origem das festas populares na Idade Média. Quero lembrar de Mikhail Bakthin (com seu livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento, 2010) e pensar na anárquica origem do termo Carnavalizar.
 As festas populares que ocorriam na Idade Média, dentre elas, o carnaval, tinham por intuito inverter a ordem, por isso chamo de anárquicas. Estas manifestações populares aconteciam paralelamente às manifestações religiosas e tinham como princípio ridicularizar, caricaturar, rir, e principalmente, se opor as regras estabelecidas na vida comum, ou seja, elas marcavam a simbolização de uma vida dupla, na qual elas manifestavam o contrário da vida comum, cheia de hierarquizações e regras, “uma fuga provisória dos moldes da vida ordinária”.  A ideia de carnavalização também se estende a ideia de renovação, que pode ser equacionada da seguinte forma: degradação – renovação – libertação. As manifestações populares no final da Idade Média marcam o começo da transformação que se direciona para o Renascimento, o século das Luzes.
O carnaval é a festa do povo, que brinca de representar na rua a realidade, uma realidade próxima, mas também avessa à vida comum.  Ao representar, acaba por também viver esta realidade, tornando-a verdadeira, fazendo com isso a transformação (renovação) dos valores de uma comunidade. Esta é a ideia primordial do carnaval. E no país do carnaval, que vaia a presidente em pleno estádio de futebol, corrobora o ato de ridicularizar e faz jus ao significado do carnaval. Assim, sair à rua é ir contra a ordem, esta ordem que tenta colocar medo com balas de borracha, bem mais dolorosas que uma bola de futebol. Portanto, no país do carnaval e do futebol, carnavalizar é ir contra a ordem, é ir para rua, é ser contra a hierarquização dos direitos, é transformar. “O carnaval é a segunda vida do povo”. Portanto, vamos para rua, carnavalizar!

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